Nos próximos dias comemoro (ou lamento) um ano de trabalho com o OpenXML na ISO, e confesso que quanto mais passa o tempo, mais longe fico de encontrar uma resposta plausível para a mais fundamental (e esquecida) das perguntas: “Para quê dois padrões ?”
A alegação dos proponentes é o suporte ao legado, que não está comprovado tecnicamente nas mais de 6 mil páginas de especificação. Não comprovam também a alegação de que o OpenXML responde a necessidades específicas dos usuários… Será que algum deles leu a especificação do ODF (ISO/IEC 26300)?
As razões comerciais para a existência deste segundo padrão são mais do que óbvias e já foram amplamente comentadas no mundo todo, mas será que isso não serve como um alerta de que alguma coisa equivocada está ocorrendo ? Será que as iniciativas de padronização internacional são apenas movidas por interesses comerciais de meia dúzia e o argumento de que a padronização auxilia a reduzir barreiras artificiais para o livre comércio não passa de ideologia barata e utópica ?
Será que a ISO 9000 seria o que é para a Qualidade no mundo todo se os opositores dela tivessem proposto e fizessem o necessário para termos diversas normas de qualidade, endereçando necessidades distintas próprias e de seus usuários ? Será que a ISO vai aceitar nos próximos meses a proposta de uma norma de qualidade mais flexível, que seja compatível com o legado de desorganização que as empresas ainda possuem hoje ? Será que a falta de capacidade de uma empresa de pequeno porte ter e manter com decência um sistema de qualidade baseado na ISO 9000 não configura uma necessidade específica de usuários e portanto demanda uma nova norma interncional ?
Passamos então às questões ambientais ? Será que pequenas e médias empresas têm condições e estrutura para manter uma certificação ISO 14000 corretamente ? Será que as alegações da China sobre as emissões de carbono (diga se de passagem apoiadas pela postura norte americana) não demonstra a existência de necessidades específicas de usuários para que se elabore uma nova norma ambiental ?
O precedente que o OpenXML trouxe para o ambiente de normatização internacional, a meu ver, é o pior possível, pois amparado na existência de dois padrões para documentos editáveis, ou ao menos na possibilidade de se mobilizar o mundo todo e gastar rios de dinheiro nesta discussão, não vão permitir ao JTC1, à ISO, ao IEC e a ninguém recusar a discussão de novas normas ou normas alternativas para nenhum setor da economia. Isso me preocupa, pois todo o esforço de normatização realizado nas últimas décadas pode ir parar na lata de lixo em pouco tempo e o pior é que todo mundo faz de conta que isso não está ocorrendo. Querem ver um exemplo da bagunça… dou um dos bons…
O formato PDF já é uma norma ISO, o PDF/A que é a norma ISO 19005-1:2005, publicada em Outubro de 2005. Ela foi elaborada com base em um subconjunto da especificação PDF 1.4 da Adobe. Diversos países e organizações no mundo todo já adotaram este padrão como padrão de armazenamento de documentos não editáveis.
A Microsoft lançou junto com o Windows Vista um novo padrão para documentos eletrônicos não editáveis, chamado de XPS (Xml Paper Specification) que utiliza os mesmos conceitos de empacotamento do OpenXML (OpenPackaging Convention) para armazenar documentos não editáveis. Quem adivinhar onde o XPS está sendo normatizado, como mais um “Padrão Aberto” ganha um doce… ECMA… Não precisa de muita criatividade para perceber que este padrão deverá ser também apresentado á ISO através de um FasTrack nos próximos meses, seguindo à risca a cartilha do OpenXML.
A Adobe já percebeu isso e já se manifestou. Um press release da própria empresa, de Feveriro deste ano já anunciava a entrega da versão 1.7 do padrão à ISO. Esta proposta já seguiu os seu caminho natural e esta semana se encerrou a votação do padrão na ISO. Segundo a expectativa de um blog da Adobe, publicada ontem, o padrão foi aprovado. Minha opinião pessoal é que esta aprovação é muito relevante, pois agora o PDF passa a ser um padrão internacional completo, e não um sub-set como era o PDF/A.
Portanto alerto a todos os envolvidos e interessados que já reservem uma parte do seu orçamento para 2008 para poder discutir o FasTrack do XPS, pois acho que ele vai ser inevitável.
Gostaria de saber quais serão os outros padrões que serão atropelados (ou que tentarão atropelar) dentro da ISO. Quanto dinheiro iremos jogar fora nesta década para aprender esta lição ?
O que mais me deixa desanimado é ver que isso tudo pode colocar em uma posição delicada o papel da própria ISO no cenário da padronização internacional. A bagunça que ela está deixado ser feita em suas próprias normas, podem fazer com que nos próximos anos, ser norma ISO ou ser norma do Zezinho dê na mesma. A meu ver esta bagunça toda ameaça a reputação que esta entidade tem, que para mim sempre foi sinônimo de seriedade e competência.
A existência de padrões únicos, construídos através da coletividade é que me permite hoje acessar á internet e escrever este artigo e que lhe permite ler isso aqui de qualquer lugar, usando qualquer navegador e qualquer sistema operacional. É o que nos permite comprar qualquer CD de música e poder usar em qualquer CD player (no de U$ 50 mil ou no de R$1,00). Este é o mundo que a padronização internacional constrói mas evidentemente isso não interessa a todo mundo.
Ter seu nicho de mercado comoditizado é para empresa séria, competente e comprometida com a diferenciação e o atendimento a seus clientes… Não é para qualquer um, independente do seu tamanho ou realizações no passado…
Para aliviar um pouco o post, no último final de semana resolvi matar saudade do meu violão e acabei tocando uma música que me lembrou muito sobre tudo isso que escrevi aqui. Acho que foi ela que me incentivou a escrever este artigo.
A música é “Anarchy in UK” do Sex Pistols e quando toquei no final de semana, troquei apenas o UK para ISO e muita coisa fez sentido… Talvez seja esta a resposta para a pergunta que não quer calar…
A frase que achei mais interessante é:
“Anarchy at the ISO
It’s coming sometime and maybe.
I give a wrong time, stop a traffic line.
Your future dream is a shopping scheme”
É isso que eles querem… Anarchy in ISO !!!


December 6th, 2007 - 4:47 pm
Mandei o seu artigo para a BR-Linux. Não se espante se houver um pico de acesso.
December 7th, 2007 - 10:07 am
Simplesmente fantástico esse texto, demonstra bem o que muitos estão sentindo e muitos estão ignorando.
December 7th, 2007 - 10:26 am
Este é realmente que mostra as mazelas e distúrbios que certa empresa com seu Adolf ballmmer, destruindo e banhando de m*r*d* o mundo em beneficio proprio e dos mesmo sem ao menos notar o quanto prejudicial eles estão sendo, ainda se dizem portadores das inovações, são portadores é da chave da destruição
December 7th, 2007 - 10:56 am
Belíssimo artigo!
Demonstra muito do que penso a respeito. Confesso que até agora não consegui entender todo esse “blá, blá, blá” a respeito deste assunto, nem o porquê de tanto alvoroço em cima do padrão da MS, se o ODF está aí já sendo utilizado em milhares de computadores e governos. Se o ODF é muito mais fácil de ser “entendido” e implementado. Se o ODF é totalmente aberto, o que já não ocorre com o tal “padrão” não tão padronizado daquela tal empresa desenvolvedora do sistema das janelas.
O que todos ganhamos com isso e, pior ainda, o que perdemos? Se o padrão da MS ganhar espaço e por alguma razão “obscura” o ODF perder espaço, o que poderemos para um futuro bem próximo? Divagando um pouco, acho que até a pirataria aumentaria, uma vez que os usuários desinformados (infelizmente, a grande maioria) iriam preferir utilizar a suíte proprietária, por exemplo (mesmo pirateando), ao invés de utilizar soluções livres, simplesmente para “estar na moda”, simplesmente para poder dizer que está utilizando e gerando documentos que seguem o padrão ISO.
Lamentável, mas não sei não. Sou meio pessimista neste aspecto, e acredito que muita coisa ainda vem por aí (boas ou não, não sei, mas tenho medo
).
Abraços!
December 7th, 2007 - 12:31 pm
Essa M$ é deprimente.
Engraçado que sempre ela se dava mal na ISO e pulava pra ECMA.
Agora arrumou um jeito de enrolar a ISO também, sabe-se lá como…
December 7th, 2007 - 2:41 pm
Esse é um dos males do capitalismo. Infelizmente, o movimento do software livre sozinho não será capaz de impedir que os interesses de grandes organizações com grande poder econômico se sobreponham aos interesses da sociedade.
O segundo mal é a desinformação. Como a mídia é dominada pelas grandes organizações de comunicação, com grande poder econômico, a mídia não divulga abertamente o que não é de interesse dela, e consequentemente a sociedade não se organiza como um todo para se levantar contra essas ameaças. Se a massa não entende a ameaça, jamais irá se organizar. Alguns desenvolvedores e usuários não são suficientes para causar incômodo a ISO e pressionar a não aceitação do OOXML.
Comunismo é a solução.
December 8th, 2007 - 12:45 am
Isso me fez lembrar sobre as tantas supostas “normas” da ABNT, pois muitas universidades dizem seguir realmente as normas da ABNT, contudo o que seguem são só versões inventas ou mesmo ultrapassadas que além de serem de péssima qualidade a leitura também demonstra uma péssima organização, uma das minhas decepções foi quando eu estava desenvolvendo uma organização de uma monografica para um parente, o resultado foi que disseram que estava fora dos pradrões e que fosse consultar as normas da ABNT que eram totalmente diferentes, depois mandaram consultar as normas da própria faculdade que sinceramente são de péssima qualidade, em minha crença, eles acham que somos patetas que calam com qualquer biscoito.
Se bem que estão certos, pois a partir do momento onde cada um briga por seu pedasso de pão podre então somos patetas que acrditames em qualquer coisa…
December 8th, 2007 - 10:44 pm
Artigo envia para o PSL Brasil. Um abraço.
December 10th, 2007 - 4:28 pm
Gostei muito dos comentários recebidos e gostaria de agradecer a todos.
Quanto ao que o Marcos colocou, acredito que a falta de informação ainda prejudica demais a expansão na utilização de software livre e de padrões abertos.
Eu fico espantado quando vejo por exemplo o total desconhecimento que algumas pessoas têm sobre isso, incluindo pessoas que com muito pouco poderiam contribuir para esta divulgação.
Um exemplo disso são os professores e professoras do Brasil todo. Imagine o que aconteceria se cada um deles conhecesse o OpenOffice e pudessem explicar a seus alunos que ninguém precisa cometer um crime para simplesmente redigir seus trabalhos escolares.
Existe muito ainda para ser feito no Brasil para que a utilização de ODF cresça, e honestamente isso aí depende de nós. Costumo pedir em minhas palestras para que cada um dos participantes conte o que viu nela para uma pessoa (e peça para que ela faça o mesmo). Imagine onde podemos chegar, se cada um contar só para uma pessoa ? Viu como é mais fácil do que parece ?
Obrigado pelos comentários e continuem comentando. O que me motiva a escrever este blog é o debate de idéias, e adoro quando elas são colocadas aqui mesmo (tem muita gente que ainda tem vergonha em comentar… não arranca pedaço não, pessoal
).
[]’s
Jomar
December 20th, 2007 - 1:40 pm
A tradução para inglês deste artigo está em http://avi.alkalay.net/2007/12/anarchy-at-iso.html
April 11th, 2008 - 9:54 am
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Abraços!
April 11th, 2008 - 9:55 am
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