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Como informado no meu penúltimo post, entrei en contato com a ISO e o IEC (na verdade com o Gabriel Barta do ITTF), e ele me esclareceu que apenas “recomendou” que os detalhes não fossem revelados e que não pode fazer nada contra isso (nem contra a Microsoft, nem contra este pobre delegado). Além disso me disse que eu posso falar o que quiser, mas mantém a recomendação… Tá bom…obrigado pelo conselho…

Como entre SHALL e SHOULD existe uma diferença enorme, vamos lá (e essa é uma piadinha nerd… prá galera do GT2 da ABNT)…

Para iniciar a história, na reunião de véspera do BRM, os Chefes de Delegação (HoD) foram avisados que na quarta feira teriamos todos que tomar uma decisão sobre o que fazer com as propostas do ECMA que não pudessem ser discutidas.

O forma de trabalhar adotada nos dois primeiros dias de reunião (e no papel funciona que é uma beleza), cada um dos países presentes (na verdade os chamados National Bodies ou NBs e se não me engano eram 33) poderiam apresentar para a discussão uma das propostas de seu interesse (ou seja, em ordem alfabética cada um apresentava um problema). O debate então se iniciava e caso fosse muito polêmico, os NBs envolvidos com a discussão eram convidados a discutir “off-line”, colocando o assunto para um backlog. Toda discussão terminava em instruções de alteração para o editor e qualquer coisa que não contivesse “instruções de alteração para o editor” era simplesmente ignorada.

O resultado disso é que até sexta feira, sequer duas rodadas completas foram realizadas (ou seja, houve NB que pode apresentar só uma vez) … explicação: Falta de Tempo (que aliás, explica todas as demais decisões tomadas lá, ok ?).

Durante os debates, algumas discussões acabavam se expandindo e abrangendo mais do que uma resposta (ou as vezes as respostas tratavam de temas coligados) e isso explica o elevado grau de itens discutidos (ou como prefiro chamar “tocados”) no BRM (retirado deste documento, o documento final do BRM): 189 respostas ou 18,4 % do total (isso é que é o que se espera de um debate internacional sobre uma norma de tamanha relevância, não é mesmo… Já imaginou se nossa constituição fosse escrita assim, com apenas 18% das leis discutidas e analisadas ?).

Isto significa que especialistas do mundo todo foram a Genebra para resolver apenas 18,4 % de um tremendo problema. O resto (81,6%) foi “dado um jeitinho”.

As decisões tomadas dia a dia podem ser encontradas neste documento, “notas editadas do BRM” mas confesso que ele é confuso mesmo. Um exemplo disso é que podemos ver nele que existiu uma votação sobre a transformação da especificação em uma Multi-Part standard (página 7), na qual o Brazil apresentou uma objeção. Esta votação não foi transportada para o documento final (será que alguém esqueceu ou uma alteração tão relevante não precisa ser documentada?).

Aliás, me reservo o direito de não comentar aqui o que levou a aprovação desta proposta, que na verdade transforma o OpenXML (ou a DIS 29500) em singelas cinco normas internacionais que poderão ter vida própria (única diferença de cinco normas “tradicionais” é a sua numeração compartilhada, DIS 29500-1, DIS 29500-2 … DIS 29500-5). Lindo isso, não ?

Quando chegou a quarta feira, nos foram apresentadas quatro opções de “destino”às demais respostas (ou seja, 81,6% do total). Eram apenas quatro opções e uma delas deveria ser escolhida (na hora eu me lembrei do filme “A escolha de Sofia”):

1 - Todas rejeitadas.

2 - Todas aprovadas.

3 - O ITTF decide tudo.

4 - Decisão por voto em lote (com a possibilidade de declaração de voto individual para cada resposta e/ou definição de um voto global, do tipo “aceito tudo”).

Evidentemente que a opção menos ridícula era a opção 4 e por isso ela foi aprovada (no documento final existe uma cópia da cédula de votação). Muito foi debatido sobre a possibilidade de que alguns NBs fizessem votos de bloqueio (como votar tudo sim para forçar a aprovação ou tudo não para desaprovar), mas nada poderia ser feito a este respeito…

Houve um protesto muito interessante de uma delegação que disse que não tinha ido até a Suiça para votar, que poderia fazer isso de casa e a resposta: “Paciência… a vida é assim” .

Outro NB protestou dizendo que só recebeu o documento contendo as respostas para seus próprios questionamentos e não tinha tido a oportunidade sequer de analisar as demais respostas. Por isso foi criada a opção “Não quero registrar uma posição” na cédula. O problema apontado ocorreu com outros NBs e portanto, teve NB que votou em propostas que nunca leu !!! (legal isso, né ?).

Uma regra colocada era que qualquer decisão tomada na reunião se sobrepunha à desição tomada pelo voto (ou seja, uma decisão tomada pelo plenário tem peso maior).

No final da semana, os votos foram entregues e no resultado final (que também me reservo o direito de não comentar), a grande maioria das propostas foram aprovadas (graças a alguns votos de aprovação por default…).

Fiz questão de contar isso apenas para que seja pública a explicação aos 98% de aprovação que certas empresas andam utilizando mundialmente.

Viu como agora os 98% não significam absolutamente nada ? E os 18,4%… estes sim merecem ser debatidos (e explicados por alguém).

Para finalizar, os documentos citados no documento final do BRM (como uma URL para o site do SC34 que é protegido por senha) estão disponíveis aqui e a tabelinha para quem gosta de fazer “conta de padeiro” pode ser encontrada aqui (e nada contra os padeiros, heim).

Todos os documentos referenciados aqui são documentos públicos do site do SC34.

Peguntas ou dúvidas… é só deixar nos comentários…

9 Responses to “Finalmente: os detalhes sobre o resultado do BRM”

  1. OOXML’s BRM: A flow of dirt :: Avi Alkalay

    […] Vegetarianism (9) OOXML’s BRM: A flow of dirt 0 comments By AviPublished: Thu, 27 Mar 2008 23:03:08 -0300 Updated: Thu, 27 Mar 2008 23:06:09 -0300 Published: 27 Mar 2008 Published: 11:03 pm Updated: 11:06 pm Categories: OpenDocument Format Tags: lang:en tech:ok         Finally Jomar, one of the brazilian delegate that went to OOXML’s BRM in Geneva has started to tell all the dirty little details of what really happened in that meeting and the surreal modus operandi of how 120 people can discuss 1027 issues in 5 days. Have fun in english and portuguese. […]

  2. A sujeira continua a aparecer no OOXML « Linux… e mais coisas

    […] como o processo está se tornando não apenas estranho, mas totalmente fora de ordem. Hoje, o Jomar postou algumas informações sobre o que diabos aconteceu realmente no BRM: na realidade, a famosa “Lei do Silêncio” não foi ‘esclarecida’ (perceba […]

  3. Surgem detalhes sobre o debate do OOXML na ISO em Genebra

    […] por Helge Panzer Kampfwagen - referência […]

  4. André

    É… Tem coisa fedida que não tá cheirando bem por aí!
    o.O

  5. Antônio Pessoa

    Bom, já sabemos de onde Hugo Chaves se inspira para realizar suas votações.

  6. passa openxml, passa boiada — Chá Quente

    […] pela descrição do Jomar para entender o processo. Para mergulhar no suposto lado obscuro da coisa, comece pelo NoOOXML e siga os links tanto do […]

  7. OpenXML como Padrão ISO??? « Tecnologia Livre!

    […] acordo com esse site, existem inumeras outras queixas sobre essa votação no minimo […]

  8. Nilson Lopes

    Levando em consideração o TAMANHO da MICROSOFT em relação aos supostos concorrentes (SOFTWARE LIVRE), o que vocês achavam que ia acontecer ?
    Todos sabiam da importância desta votação, o problema é que ninguém enviou lobistas para conversar com os NBs antes desta palhaçada, isso parece uma licitação de cartas marcadas, igualzinhas as que vemos aqui no BRASIL…………

  9. Microsoft, OOXML e ISO « bauermann

    […] ao assunto, este post (também do Jomar Silva) explica como foi a reunião de BRM (Ballot Resolution Meeting) em Genebra. […]

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