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Fiquei surpreso em ver publicado no Groklaw um link para um documento da Microsoft que descreve a estratégia de marketing utilizada por eles. Este documento foi tornado público por conta do processo Comes v. Microsoft sobre antitrust.

O documento em questão descreve o chamado “Effective Evangelism” ou Evangelização Efetiva e ele data de 1997.

O ponto que gostaria de chamar a atenção do documento é referente a utilização de “consultores independentes” feita por eles e mais ainda sobre a utilização dos chamados “NEUTROS” (no documento a estratégia é explicada para debates e painéis, mas ela foi utilizada como está nos NBs, afinal em tese o trabalho lá era debater…).

Quanto aos consultores independentes, acho que o texto é auto explicativo e ilustra o motivo pelo qual tanta gente “independente” no mercado tem apoiado a Microsoft.

Quanto aos NEUTROS, realmente eu me surpreendi em ver uma explicação tão clara sobre a forma de participação destes nos NBs, e em alguns países onde acompanhei as discussões, foram os NEUTROS que decidiram o voto SIM.

Muitos tem me perguntado nos últimos dias (incluindo aqui diversos jornalistas) se a estratégia de entupir comitês com parceiros comerciais não era muito fraca e fácil de perceber. Eu não poderia dar uma resposta muito boa para isso pois se revelasse a história toda, poderia estar acusando muita gente sem provas. Com este documento em mãos eu posso agora explicar isso de forma bem didática, sem acusar ninguém nem ser acusado de distorcer os fatos.

É claro que nos países onde os comitês estavam repletos de parceiros comerciais as distorções seriam gritantes e o processo um escândalo gigantesco (e olha que até isso ocorreu de fato). Para evitar isso, foi utilizada pela Microsoft a estratégia de colocar “SEUS NEUTROS” em diversos comitês (inclusive aqui no Brasil).

Esta estratégia clarificava os papéis e posturas dos membros dos comitês, mas deixava uma dúvida enorme em relação aos NEUTROS (normalmente representantes de universidades públicas ou privadas em em raros casos representantes de órgãos de governo). Em alguns casos, estes NEUTROS chegaram a debater e se manter na neutralidade durante todo o processo, dando mesmo a impressão de que fariam uma análise técnica ou que teriam uma postura técnica no final do processo, mas quando foi necessária a votação final, votavam pela APROVAÇÃO da especificação (e cito aqui a votação final mesmo, a de Março… tudo muito bem planejado e executado).

Este trecho do documento menciona os “consultores independentes”, quando fala sobre painéis de discussão em debates:

“… *Our mission is to establish Microsoft’s platforms as the de facto standards throughout the computer industry*….

Working behind the scenes to orchestrate independent” praise of our technology, and *damnation of the enemy’s*, is a key evangelism function during the Slog.

“Independent” analyst’s report hould be issued, praising your technology and damning the competitors (or ignoring them).

*”Independent” consultants* should write columns and articles, give conference presentations and moderate stacked panels, all on our behalf (and setting them up as experts in the new technology, available or just $200/hour)…”

Este trecho do documento menciona os “neutros da academia”:

“…*”Independent” academic sources* should be cultivated and quoted (and research money granted).

“Independent” courseware providers hould start profiting from their early involvement in our technology. Every possible source of leverage should be sought and turned to our advantage…”

Este trecho do documento descreve os “neutros de mercado”:

“… A *stacked panel, on the other hand, is like a stacked deck: it is packed with people who, on the face of things, should be neutral, but who are in act strong supporters of our technology*.

The key to stacking a panel is being able to *choose the moderator*. Most conference organizers allow the moderator to select the panel, so if you can pick the moderator, you win.

Since you can’t expect representatives of our competitors to speak on your behalf, you have to get the moderator to agree to having only “independent ISVs” on the panel. *No one from Microsoft or any other formal backer of the competing technologies would be allowed – just ISVs who have to use this stuff in the “real world.”* Sounds marvelously independent doesn’t it? In fact, it allows us to stack the panel with ISVs that back our cause. Thus, the “independent” panel ends up telling the audience that our technology beats the others hands down. Get the press to cover this panel, and you’ve got a major win on your hands.”

Já o trecho abaixo, descreve como encontrar o moderador “ideal” para os debates (e isto explica como foram eleitos alguns coordenadores dos comitês no mundo todo):

“…Finding a moderator is key to setting up a stacked panel. The best sources of pliable moderators are:

- Analysts: Analysts sell out - that’s their business model. But they are very concerned that they never look like they are selling out, so that makes them very prickly to work with.

- Consultants: These guys are your best bets as moderators. Get a well-known consultant on your side early, but don’t let him publish anything blatantly pro-Microsoft. Then, get him to propose himself to the conference organizers as a moderator, whenever a panel opportunity comes up. Since he’s well- known, but apparently independent, he’ll be accepted – one less thing for the constantly-overworked conference organizer to worry about, right? …”

Quando comentei em um post anterior que era necessária a lista de organizações que faziam partes dos comitês, agora acho que ela é realmente fundamental, pois poderemos identificar claramente ali os parceiros comerciais da Microsoft e os NEUTROS que os apoiaram nesta votação.

Resolvi escrever este post pois considero que é o cúmulo da falta de ética o que estas pessoas fizeram. Eles utilizam o nome de alguma instituição séria e respeitada para obter lucros pessoais, se legitimando através de instituições consideradas como sólidas e confiáveis. Usaram o nome de alguma organização respeitada para ocultar sua falta de escrúpulo, e em alguns casos fazem isso sem que a alta direção da instituição que teve o nome usado sequer saiba do que está ocorrendo (o manto do sigilo ataca novamente).

Este é mais um dos mecanismos de corrupção que foi utilizado mundialmente nesta análise, agora comprovadamente uma estratégia de marketing e não mais a impressão de alguém. Este absurdo só teve sucesso por conta do absurdo sigilo que existe na maioria dos NBs.

Se um NB decide e responde em nome de uma nação, toda sua discussão e todos os seus membros devem ser de conhecimento público. Esta falta de transparência é que permite que aberrações como estas ocorram.

Transparência já e investigação severa ao que ocorreu nos NBs no mundo todo. A ISO e o IEC não podem continuar “fazendo de conta” que nada disso existiu: Contra fatos não há argumentos !!!

6 Responses to “OpenXML: Quer entender como eles trabalharam ?”

  1. Quer entender como eles trabalharam ? : consultant au brésil

    […] Original post by homembit […]

  2. Avi Alkalay

    Juro, me senti foleando pornografia pesada ao ler este documento.

  3. NerdProud

    Você se excita muito fácil então meu colega Avi

  4. OOXML: Vale a pena ser aprovado assim? | Open2Tech

    […] Vale a pena ser aprovado assim? Apr.08, 2008 in Notícias, Padrões Confesso que ao ler este artigo no blog do Jomar Silva fiquei ao mesmo tempo surpreso e conformado. Surpreso por ver que, apesar de toda a “capa de […]

  5. Daigo

    Já sugeriram colocar em xeque a credibilidade da ISO? Porq q, depois dessa, é o + correto a ser feito.

  6. Microsoft, OOXML e ISO « bauermann

    […] a escrever este artigo), e já que citei o documento interno da Microsoft, começo mencionando este post do Jomar Silva que comenta a aplicação da tática descrita no documento ao processo da ISO. Jomar […]

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