Aprendi em 2008 que quanto mais eu rezo, mais assombração aparece e nada melhor para começar este 2009 com o pé esquerdo do que o e-mail da ISO que recebi nos últimos dias, via ABNT, convidando o Brasil para participar do esforço internacional de “coleta de erros” do OpenXML.
Para quem não conhece, resumo a história do OpenXML:
Em 2006, a ISO aprovou como norma Internacional o ODF (OpenDocument Format – ISO 26.300) e desde então ele vem sendo adotado no mundo todo, principalmente por governos, como o padrão para armazenamento de documentos eletrônicos editáveis (planilhas, textos e apresentações).
A aprovação do ODF e sua crescente adoção se mostrou como uma gigantesca ameaça ao mercado de suites de escritório, pois diversas ferramentas de software trabalham com documentos ODF e por isso, a comoditização deste mercado é inevitável, acabando com o monopólio da Suíte de Escritório do Clips.
Como não poderia perder seu mercado assim de bandeja, a Microsoft desenvolveu em 12 meses uma norma “equivalente” ao ODF em uma entidade chamada ECMA, que teve a proeza de escrever, discutir, votar e aprovar mais de 6.000 páginas de especificação técnica em 12 meses. Ao término deste processo, a norma (ou o texto) resultante foi enviado á ISO (o ECMA foi escolhido por ser a entidade que tem um “passe especial” para a ISO, o FastTrack).
O processo utilizado pela ISO para a análise da norma, chamado de FastTrack prevê que em 6 meses todos os países devem analisar e votar pela aprovação ou rejeição de uma norma.
A votação do OpenXML ocorreu em meados de 2007 e o resultado foi a reprovação, justificada por mais de 3.000 defeitos técnicos apontados pelos países.
Estranhamente (dado o resultado da votação e a vasta quantidade de erros apresentada), a ISO insistiu no assunto e agendou uma reunião de 5 dias em Fevereiro de 2008 para que os problemas técnicos fossem discutidos e resolvidos (para quem não sabe, eu participei desta reunião como um dos três delegados Brasileiros). Esta reunião se chamou BRM - Ballot Resolution Meeting, e foi realizada em Genebra na Suiça. (Se alguém aí acha que conseguimos mesmo discutir e solucionar 3.000 problemas técnicos em 5 dias, me contacte pois eu tenho um terreno lindo para vender em Plutão).
Um mês após o término da reunião, foi dada aos países a oportunidade de mudar o seu voto e milagrosamente houve a mudança de votos necessária para que a norma fosse aprovada, mesmo com todos os erros e problemas técnicos escandalosos existentes nela.
O Brasil votou pela rejeição na primeira votação, manteve seu voto nesta segunda e após o resultado final enviou um apelo formal á ISO, pedindo a anulação do processo, mas apesar de demonstrarmos diversas violações ás diretrizes da ISO em nosso apelo, fomos sumariamente ignorados. África do Sul, Venezuela e Índia procederam da mesma forma e também foram sumariamenteignorados (me parece que a ISO detesta o terceiro mundo, não é mesmo ?).
Resultado final: OpenXML aprovado como norma ISO 29.500 no início de Abril de 2008, mas seu texto final só foi conhecido em dezembro de 2008. (Esqueci de contar este detalhe: Os países mudaram seu voto SEM CONHECER O TEXTO FINAL da norma).
No final do ano passado, após a publicação do que deveria ser o “texto da norma”, é criado na ISO um grupo com a missão de “corrigir o OpenXML” !!!
A tarefa vai passar inicialmente por uma coleta dos problemas encontrados no mundo todo (um faxinão) que de tão grande, demandou até a criação de um portal para ajudar a organizar a bagunça.
Na semana passada, enviaram a todos os National Bodies membros do SC34 (ABNTs de outros países) um convite para que sejam enviados a eles todos os defeitos técnicos ou editoriais da norma do OpenXML. Após o recebimento de todos os erros, estes serão organizados e depois um grupo de trabalho irá trabalhar para resolve-los, gerando o que deverá ser uma versão “sem erros editoriais e técnicos” da norma !!! E tudo isso sem data definida !!!
Esta é a primeira vez que eu tomo conhecimento de uma norma “reserva”, que foi aprovada só para “guardar lugar”. É como se fosse uma norma “cone de trânsito”, daqueles que a galera põe na rua para reservar vagas de estacionamento.
Algumas perguntas que continuam sem resposta plausível sobre tudo isso:
Qual foi a utilidade de aprovar uma norma tão cheia de erros que agora precisa até de um site para ajudar a resolve-los ?
A aprovação de uma norma com tantos problemas pode ser considerada uma atitude responsável ? Quem será o grande culpado por tamanha irresponsabilidade ?
Entramos em uma nova era na normalização internacional, onde primeiro se aprova e depois se escreve o texto aprovado ?
Qual é o valor real de uma norma ISO nesta situação ? Será que existe alguém suficientemente ingênuo ou mal intencionado no mundo para utilizar a IS 29.500 para alguma coisa antes que ela seja definitivamente corrigida ?
Como fica a reputação da ISO depois de tanta lambança ? Prá mim esta história já ultrapassou Monty Python faz tempo !!!
Será que sou só eu, ou alguém mais notou uma séria de mudanças nas carreiras (e empregadores) de diversos “especialistas” e “neutros” que trabalharam arduamente para a aprovação do OpenXML no mundo todo?
Depois de tudo isso, fico mesmo horrorizado em ver a falta de escrúpulo da turma que ignorando tudo isso, fica tentando de qualquer forma empurrar o OpenXML para cima dos governos do mundo todo.
Esta turma me dá nojo ![]()



January 18th, 2009 - 12:11 pm
Depois disso… I$O fede!
*Quanto voce quer no seu terreno em plutão? =P
Abs!
January 18th, 2009 - 11:21 pm
Dois defeitos por página? É o novo recorde mundial!
January 19th, 2009 - 2:14 pm
Mas, uai, já não houve um esforço global para listar todos os (mais de 1000) problemas do OpenXML ?
É muito irritante isso. Aprovaram e depois querem arrumar. É um reconhecimento que o padrão é ruim.
Isso mostra também que a ISO quer o OOXML. Aparentemente as pessoas lá acreditam que se o OOXML não existir, vão tirar alguma coisa delas, que vão deixar de ter uma suite de escritório, sei lá. É muito estranho.
As pessoas envolvidas nesse processo não agiram racionalmente. Ou agiram sem entender realmente o problema.
Lamentável.